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Com estrada de atoleiros, frete era moeda fora de controle

Recuperada, BR-163 vai aumentar a produtividade de escoamento e impactar mercado bilionário dos grãos

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Foto: Rafael Manzutti/Sinfra-MT

O sofrimento em cruzar o trecho Cuiabá-Santarém sempre teve um preço alto para a produção e o escoamento de grãos pelo Arco Norte, definido pelo governo federal como um plano estratégico que compreende portos ou estações de transbordos dos estados de Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá e Maranhão. O cálculo desse valor tem uma moeda singular, flutuante e indomável: o frete. Na condição física e intrafegável que dominou a história da BR-163, o repasse desse serviço chegou a 25% a mais do valor justo para transcorrer os quilômetros entre Sorriso (MT) e Miritituba (PA).

Esse percentual impactou diretamente os diversos atores dessa cadeia. Do agricultor ao caminhoneiro, ninguém lucrou em enfrentar os trechos até então nunca concluídos. A esperança é de que, com a anunciada pavimentação da rodovia, com inauguração marcada para ser entregue em dezembro, as contas não passarão mais pela faixa vermelha do prejuízo.

A BR-163 foi totalmente pavimentada em 28 de novembro de 2019 e deve ser inaugurada em janeiro de 2020, com a presença do presidente da República, Jair Bolsonaro. Na semana passada, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, anunciou que mais 30 quilômetros da estrada, numa ligação com Santarém, serão concluídos, anunciando que "está na prioridade do Ministério”.

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 “Não tem rodovia, não tem hidrovia, não tem ferrovia que leve a produção de milhões de toneladas de grãos do Mato Grosso aos portos que têm capacidade de escoar. Por isso, a BR-163 é tão importante. Com a conclusão, o custo de transporte total despenca em 40%”, analisa a assessora técnica Elisângela Pereira Lopes, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que estima uma colheita de 215 milhões toneladas de grãos na safra brasileira de 2019 (115 milhões de soja e 99,984 milhões de milho)

Aguardada há 46 anos, a inauguração da BR-163 torna-se estratégica ao sistema econômico de uma dos setores mais importantes do país. “A BR-163 é o eixo principal do escoamento de grande parte da produção, que a cada ano tem aumentado na saída pelo Arco Norte, os portos da região”, aponta a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina,

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A projeção do governo federal está ancorada em estatísticas. Em 2018, segundo dados da CNA, foram escoados entre Sorriso e Miritituba/Santarém 8,7 milhões de toneladas do grãos. “Se a rodovia estivesse devidamente asfaltada, o setor economizaria R$ 435 milhões”, aponta Edeon Vaz Ferreira, presidente da Câmara Temática de Infraestrutura e Logística do Agronegócio (vinculada ao Ministério da Infraestrutura) e representante da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja).

RUMO AO NORTE

 Elisângela Pereira Lopes acredita que custo com transporte caía 40%

Quando o trecho for inaugurado da BR-163 em dezembro, o impacto esperado pode ir além do preço direto do frete. A expectativa é de parar de usar outros portos mais distantes. Hoje, devido às restrições de escoamento pelo Arco Norte, uma parte significativa da produção de Mato Grosso segue para os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR). Para o caminhão, o máximo que você deve rodar para ter lucratividade é 1000 km. As distâncias do Mato Grosso para São Paulo e Paraná são de 1500 km e 2000 km.

Em condições de trafegabilidade, o escoamento pela BR-163 é a melhor opção de logística para os produtos que serão exportados para outros países. As dificuldades encontradas na rodovia, no entanto, fazem com que menos da metade do que é produzido no Mato Grosso, 43%, siga essa rota. “A gente verificou que os portos do Arco-Norte têm capacidade para escoar 70 milhões de toneladas de grãos, mas só estamos escoando 32,5 milhões, porque não tem infraestrutura de acesso”, avalia Elisângela.

“Como esse produto chega nas margens do Rio Tapajós, embarca em barcaças e são direcionados a outros portos. Podemos ter uma redução por volta de 30%”, projeta Edeon, que aposta em melhorias das diversas culturas de grãos. “Como o milho tem um valor muito menor do que o da soja, o impacto será muito maior”, opina.

FRETES FLUTUANTES

Porto de Miritutiba vai ampliar a capacidade do Arco Norte

As variações do valor de frete no trecho Sorriso – Miritituba são sazonais. Hoje, a média é de R$ 200 por tonelada. Essas flutuações deixam os agricultores sem o controle efetivo do valor do negócio. Quando a demanda estoura. É preciso abrir negociações para conter os prejuízos. O produtor de grãos e presidente do Sindicato Rural de Sorriso, Tiago Stefanello, negocia o frete por saca para circular esse trecho (atualmente, gasta R$ 16). Esse valor, no entanto, varia pela época do ano, quando chove o preço dispara.

A finalização do trecho da BR-163 promete pôr fim a essa oscilação. “Aumentaram as obras em relação aos governos passados e essa ligação com os portos do Arco Norte vão trazer economias. Mas precisamos pensar na duplicação da via dentro do Mato Grosso, que hoje é ponto de acidente”, destaca o produtor.   

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LOC: O escoamento de grãos produzidos no Mato Grosso pode ficar mais ágil e o preço do frete do transporte de cargas pode cair a partir do ano que vem, quando o governo Federal concluir as obras de pavimentação dos últimos 30 Km da BR 163, no trecho de ligação dos portos de Miritituba (PA) e Santarém (PA).

Em 2019, 50 Km da rodovia tiveram pavimentação concluída entre os distritos de Moraes Moreira (PA) e Miritituba (PA). A obra está na fase final e depende, ainda, de construção de acostamentos e de sinalização, o que deve ser concluído em janeiro. A informação é do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, publicada nas redes sociais na última semana.  

Quando ficar pronta, a nova infraestrutura da BR 163 vai contribuir para elevar a quantidade de cargas transportada na rodovia em até 45%, como explica a assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, Elisângela Lopes.

TEC/SONORA: assessora técnica da CNA, Elisângela Lopes

“A gente verificou que os portos do Arco-Norte, localizados na afluência da BR 163, têm capacidade para escoar 70 milhões de toneladas de grãos, mas só estamos escoando 32,5 milhões, porque não tem infraestrutura de acesso”.

LOC: Com o possível aumento da movimentação de cargas na BR 163, a tendência é que o preço cobrado pelo frete estabilize em patamares menores aos praticados atualmente.  

Na condição caótica que dominou a rodovia, nas últimas décadas, o frete de cargas entre Sorriso (MT) e Miritituba (PA), por exemplo, chegou a custar 25% a mais do valor médio praticado no mercado.

O presidente da Câmara Temática de Infraestrutura e Logística do Agronegócio, Edeon Vaz Ferreira, lembra que em muitas situações, as tabelas oficiais de preços nada serviam como base para o cálculo do transporte porque as condições precárias da pista fixavam variantes extras, como tempo de viagem excessivo, riscos de quebra dos caminhões e equipamentos, segurança da carga e dos motoristas. Ele afirma que os produtores tiveram grandes prejuízos por causa da antiga precariedade da BR.  

TEC/SONORA: presidente da Câmara Temática de Infraestrutura e Logística do Agronegócio, Edeon Vaz Ferreira
 

“No ano passado, se considerarmos o valor de R$ 50 de diferença naquilo que é cobrado entre o trecho Cafezal-Porto Velho e o valor cobrado na BR 163, se você multiplica por nove milhões, nós teríamos um prejuízo de R$ 450 milhões, em 2018”.
 

LOC: Quando as obras de pavimentação da BR 163 forem concluídas, o impacto positivo nas contas dos produtores e do setor público pode ir além do preço direto do frete. A infraestrutura vai mudar a logística, que atualmente é voltada para os portos das regiões Sul e Sudeste.   

É que devido às restrições de escoamento pela BR 163, parte significativa da produção de Mato Grosso segue para os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR).

O trajeto não é vantajoso para o produtor porque o transporte de grãos por caminhões passa a gerar prejuízos quando eles rodam mais de mil quilômetros para entregar as cargas.

As distâncias do Mato Grosso para São Paulo e Paraná são de 1.500 km e 2.000 km, respectivamente.

Por isso, o transporte pela BR 163 é a melhor opção para os produtores, já que, a distância entre Sorriso (MT) e Miritituba (PA) é de pouco mais de mil quilômetros.

Para o produtor de grãos e presidente do Sindicato Rural de Sorriso (MT), Tiago Stefanello, a conclusão da pavimentação da BR 163 pode iniciar período de forte crescimento econômico no agronegócio do país e estabilizar os preços do transporte, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte do país.

TEC/SONORA: presidente do Sindicato Rural de Sorriso (MT), Tiago Stefanello

“Com esse governo novo, as obras aumentaram muito rapidamente. Está sendo efetuado o que os governos passados não fizeram”.  

LOC: No próximo ano, o IBGE estima que o país deva colher mais de 240 milhões de toneladas de grãos. A soja deve ter produção recorde, com colheita estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, acima dos 121 milhões de toneladas.

Se o número for confirmado, o Brasil vai ultrapassar os Estados Unidos e assumirá o posto de líder mundial na produção de soja, pela primeira vez na história. As exportações do grão devem superar 72 milhões de toneladas.

Com a colaboração de Felipe Torres. Reportagem. Cristiano Carlos