Menu

Atletas de futevôlei entram em quadra para chamar atenção para violência contra a mulher

Um grupo de 50 atletas de futevôlei de Brasília decidiu se juntar para incentivar a empatia e companheirismo entre as mulheres

Banners
Foto: Arquivo Pessoal

Para provar o conceito de que lugar de mulher é onde ela quiser, mais de 50 atletas de futevôlei se reúnem em Brasília, neste sábado (30), para um torneio com o lema #NenhumaAMenos. O campeonato surgiu da ideia de confraternizar e incentivar a empatia e companheirismo entre as mulheres, em tempos onde o número de violência e de feminicídios têm aumentado a cada dia. O torneio acontece na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB), a partir das nove da manhã.

A preocupação das atletas em reforçar o cuidado umas com as outras tem sentido. Ao cruzar os dados oficiais do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde com dados populacionais extraídos de pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em pelo menos 12 municípios do país, as mulheres têm as mesmas ou mais chances de morrer vítimas de agressão do que de doenças do sistema circulatório ou câncer - as duas principais causas de óbitos femininos no país.

Enquanto, em todo o Brasil, a média de mortes femininas por agressão representa 0,88% do total, há cidades em que esse número salta para até 19,5%. O cruzamento foi feito pela Agência Lupa.

Uma das maneiras de lutar contra a violência é através do empoderamento. As piadas, como as de que “lugar de mulher não é na quadra” ou “mulher não sabe jogar”, viram incentivo.

Tatiana da Cunha Albuquerque, 46 anos, é prova disso. Em uma situação, um homem que jogava na mesma quadra que ela deixou a partida e justificou que era porque tinha uma mulher do outro lado. Outra vez, ouviu de rapazes que era melhor ela ir para casa, lavar louça. Há nove anos nas quadras de futevôlei, Tatiana tem provado que pode estar onde quiser.

“Acho que melhorou muito, a gente tem mais espaço, as mulheres estão conquistando espaço, mas esse espaço até hoje não é fornecido, não é doado, não é preservado. A gente está na batalha. Acho que nossa batalha dentro do esporte é a batalha das mulheres na sociedade, ali a gente tem um recorte, o que é muito legal porque a gente tem a chance de dar as mãos, de se abraçar e batalhar. E esse torneio vem trazendo essa força muito bacana, todo esse espírito de fortalecimento de laços, confraternização, guerreiras e comemoração das nossas vitórias e espaço que a gente conquistou”, afirma.

Segundo uma das organizadoras do torneio, Marjorie Stemler da Veiga, de 43 anos, os planos de fazer um evento pequeno, porém, simbólico, foram transformados em um grande evento, com a participação de mais de 50 mulheres e atletas de futevôlei.

“Cresceu de um jeito impressionante. Muitas meninas querendo participar e o grupo foi só aumentando, aumentando. Inédito ter tantas meninas envolvidas em um único evento. Jogo futevôlei há 19 anos e nunca vi tanta mulher junta em um torneio, mesmo sem premiação. O objetivo é agregar, mostrar o crescimento do futevôlei, principalmente, entre as mulheres. E, claro, fortalecer o grito de basta de violência contra as mulheres”, ressalta ela.

Referência mundial

Entre as atletas que estarão no torneio está Lana Miranda, referência do esporte feminino no Brasil. A atleta é 10 vezes campeã mundial, 18 vezes campeã brasileira e atualmente é a segunda colocada no ranking nacional da Confederação Brasileira de Futevôlei (CBFv).  

“A partir do momento em que a gente nasce mulher, a gente já nasce com um certo preconceito perante a sociedade, então isso foi muito difícil para mim, na minha carreira, e foi um dos motivos que me levou até hoje a conquistar todos esses meus títulos e minhas conquistas, foi de, realmente, vários e vários homens falarem que a gente não consegue chegar, mulher não é pra jogar bola, é sempre atrás do fogão, mas que a mulher vem quebrando isso. A partir do momento que as mulheres vem quebrando esse paradigma a gente vê uma evolução do empoderamento feminino e isso é bom porque a gente sabe o total valor e a força que uma mulher tem”, comenta a atleta.

De acordo com o superintendente nacional de Eventos da Confederação Brasileira de Futevôlei (CBFv), Ronaldo Sanches, o esporte tem mudado em função do crescimento da participação feminina. Um exemplo são os torneios de futevôlei realizados pelo país. Até pouco tempo, muitos campeonatos eram organizados apenas com a categoria masculina. No campeonato deste fim de semana, na AABB, também terá disputa masculina, com a participação de 16 duplas.

Agora, além de só fecharem evento com as duas categorias, a CBFv tem trabalhado para igualar as premiações. “Tem uma diferença de premiação que a gente tende a aumentar conforme for crescendo o esporte. A gente notando esse crescimento que já está ocorrendo, a tendência é até os patrocinadores se engajando mais no esporte, a gente aumentar a premiação do feminino até equiparar”, projeta Ronaldo.

#NenhumaAMenos

A hashtag surgiu na Argentina (em espanhol, #NiUnaMenos), após estupro e assassinato de Lucia Perez, uma garota de 16 anos, que foi drogada, violentada e morta por três homens. Com a tragédia de Lucia, a comoção foi geral e a campanha #NiUnaMenos, criada em 2015, ganhou força pelo mundo, principalmente na América do Sul.

Entenda

O esporte, praticado nas praias do Rio de Janeiro desde a década de 1960, até pouco tempo era procurado muito mais pelos amantes do tradicional futebol ou por quem já fazia algum tipo de atividade com a bola. Hoje, o futevôlei virou também um forte aliado no controle do peso corporal. O motivo é simples: queima cerca de 600 calorias em uma hora de aula.

É praticado em uma quadra de vôlei, parecida com a de vôlei de praia, com as medidas de 9m de largura por 18m de comprimento, dividida ao meio por uma rede com 2,20m de altura (masculino) e 2m (feminino). O jogo pode ser disputado em sistemas de duplas (2x2), trios (3x3) ou quartetos (4x4), masculino, feminino ou mistos.

O objetivo do jogo é conseguir fazer a bola cair na quadra adversária. Para isso, os jogadores tocam a bola com qualquer parte do corpo, exceto braço, antebraço e mão. Cada dupla pode dar até três toques na bola. O mesmo jogador não pode tocar duas vezes seguidas. O jogo é disputado em forma de sets de 18 pontos.

 

Agência do Rádio



Cadastre-se

LOC.: Lugar de mulher é onde ela quiser. Essa máxima feminina, que tem sido gritada pela mulheres, será mais um vez reforçada neste sábado. Um grupo de 50 atletas de futevôlei de Brasília decidiu se juntar para incentivar a empatia e companheirismo entre as mulheres, principalmente, em tempos onde a violência contra a mulher só tem aumentado. O torneio será no clube da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB) da cidade.
 
Em pelo menos 12 municípios do país, as mulheres têm as mesmas ou mais chances de morrer vítimas de uma agressão do que de doenças do sistema circulatório ou de câncer, como indica um cruzamento de dados da Agência Lupa. Enquanto em todo o Brasil a média de mortes femininas por agressão é de 0,88% do total de mortes, há cidades em que esse número salta para quase 20%.
 
Preconceito, piadas machistas, discriminação de gênero também são formas de violência. A psicóloga Tatiana da Cunha Albuquerque de 46 anos, atleta de futevôlei há nove anos, já foi obrigada a ver um homem sair da quadra porque ela estava jogando. Em outra ocasião, ouvir que era melhor ir embora para casa, lavar a louça.
 

TEC/SONORA: Tatiana da Cunha Albuquerque, atleta de futevôlei há nove anos.
 
“As mulheres estão conquistando espaço, mas esse espaço até hoje não é fornecido, não é doado, não é preservado. A gente está na batalha. Acho que nossa batalha dentro do esporte é a batalha das mulheres na sociedade, ali a gente tem um recorte, o que é muito legal porque a gente tem a chance de dar as mãos, de se abraçar e batalhar. E esse torneio vem trazendo essa força muito bacana, todo esse espírito de fortalecimento de laços, confraternização, guerreiras e comemoração das nossas vitórias e espaço que a gente conquistou.”
 

LOC.: Entre as atletas que estarão no torneio está Lana Miranda, referência do esporte feminino no Brasil. A atleta é 10 vezes campeã mundial, 18 vezes campeã brasileira e atualmente é a segunda colocada no ranking nacional da Confederação Brasileira de Futevôlei (CBFv). Segundo ela, as barreiras que são encontradas pelo caminho devem servir de trampolim para o sucesso.

TEC/SONORA: Lana Miranda, referência do esporte feminino no Brasil
 
“A partir do momento que a gente nasce mulher a gente já nasce com um certo preconceito perante a sociedade, então isso foi muito difícil pra mim, na minha carreira, e foi um dos motivos que me levou até hoje a conquistar todos esses meus títulos e minhas conquistas foi de realmente vários e vários homens falarem que a gente não consegue chegar, mulher não é pra jogar bola, é sempre atrás do fogão, mas que a mulher vem quebrando isso. A partir do momento que as mulheres vem quebrando esse paradigma a gente vê uma evolução, sim, do empoderamento feminino e isso é bom porque a gente sabe o total valor e a força que uma mulher tem.”
 

LOC.: A desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho quando o assunto são cargos e salários não é muito diferente dentro das quadras. Até pouco tempo, alguns torneios eram realizados apenas na categoria masculina. E as premiações, até hoje, são maiores para os atletas homens, injustiça que deve ser corrigida com o fortalecimento do esporte, segundo o superintendente nacional de Eventos da Confederação Brasileira de Futevôlei (CBFv), Ronaldo Sanches.
 

TEC/SONORA: Ronaldo Sanches, superintendente nacional de Eventos da Confederação Brasileira de Futevôlei (CBFv), Ronaldo Sanches.
 
 
“Tem uma diferença de premiação que a gente tende a aumentar conforme for crescendo o esporte. A gente notando esse crescimento que já está ocorrendo, a tendência é até os patrocinadores se engajando mais no esporte, a gente aumentar a premiação do feminino até equiparar.”
 

LOC.: O torneio da Associação Atlética de Brasília terá mais de 50 atletas e uma temática, a hashtag #NenhumaAMenos. A campanha surgiu na Argentina, em 2015, após o estupro e o assassinato de Lucia Perez, uma garota de 16 anos, que foi drogada, violentada e morta por três homens.

Reportagem, Camila Costa