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Mesmo com proibição por lei, sistema de castas continua a existir na Índia

O especialista em Cultura da Índia, Ruy Bastos, explicou o sistema para a Agência do Rádio

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No último mês, o mundo assistiu à maior eleição democrática de todos os tempos. 900 milhões de indianos compareceram às zonas eleitorais espalhadas pelo país para escolher quem seria o primeiro-ministro da Índia. No Parlamento, com maioria de 348 contra 542 assentos, o BJP (Partido do Povo Indiano) de Narendra Modi, foi reeleito.

O premiê nasceu da união entre “Ghanchi” e “Teli”, que são duas subdivisões dentro da casta de Vaixas. No sistema de castas, usado informalmente pelos indianos, existem quatro divisões: Brâmanes, que são sacerdotes e têm função intelectual na sociedade; os Xátrias são os guerreiros e administradores, que organizam o país; Vaixas, que são os comerciantes – Modi se enquadra nesta casta; e Sudras, que são os camponeses e operários.

Arte: Italo Novais/Agência do Rádio Mais

Até 1950, era permitida a existência de uma outra “casta”, os Dalits – ou páreas, em português – que eram considerados impuros e só poderiam ter contato entre si. Porém, nessa época, foi abolido não só o termo “Dalit”, mas todo o sistema de castas. O problema é que, segundo o diretor do Centro de Estudos Narayama e especialista em cultura da Índia, Ruy Bastos, o sistema continuou a existir informalmente.

“Existem brâmanes que, ao tocarem em páreas ou encostar na rua eventualmente, eles passam semanas se purificando. Ainda existe um pouco, em alguns redutos mais tradicionais, uma discriminação forte em função ainda dessa hierarquia", afirma o especialista. 

De todo modo, Ruy Bastos explica que a casta do premiê Narendra Modi é considerada vulnerável e, por isso, precisa de políticas públicas mais específicas para se integrar melhor à sociedade. Apesar de não serem descriminados, em algumas regiões da Índia, os Vaixas estão quase abaixo da miséria.
Mesmo assim, de acordo com Bastos, a hierarquia não impede que indianos de castas mais baixas ocupem cargos públicos ou governem, e no caso de Modi, o que valeu mais no momento da eleição foi o forte nacionalismo hindu, principal movimento religioso na Índia.

“Ele tem um apelo muito forte porque ele tem um jogo de cintura. Ele teve uma ligação inicial com movimentos hinduístas fundamentalistas, e ele ressurge com o discurso de tradições indianas. Ele vem resgatando essas tradições, e à rigor ele não teria nenhum tipo de restrição. Ele não é considerado um párea, ele não está fora do sistema de castas. Ele está bem enquadrado, e tem um apelo popular enorme em função de ter resgatado uma série de valores tradicionais hinduístas", explica Bastos. 

De acordo com o Population Reference Bureau (PRB), uma organização privada norte-americana sem fins lucrativos, a Índia é composta por 1,37 bilhão de pessoas. Segundo estudo divulgado em 2018, é possível que até 2050, o país ultrapasse em 25% a população chinesa, que atualmente é a maior do mundo.

Enquanto isso, a tendência é que, mesmo com a proibição, o sistema de castas continue a existir informalmente na Índia. E por ser um país muito populoso, não será possível controlar a tradição.

Sara Rodrigues

Sara iniciou a carreira jornalística como estagiária da Agência do Rádio, em 2014. Foi repórter da UnBTV durante 1 ano e 6 meses e retornou para a redação da ARB como repórter. É responsável pela coluna Diversão em Pauta, e cobre Política Internacional.


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LOC.: No último mês, o mundo assistiu à maior eleição democrática de todos os tempos. 900 milhões de indianos compareceram às zonas eleitorais espalhadas pelo país para escolher quem seria o primeiro-ministro da Índia. No Parlamento, com maioria de 348 contra 542 assentos, o BJP (Partido do Povo Indiano) de Narendra Modi, foi reeleito.

O premiê nasceu da união entre “Ghanchi” e “Teli”, que são duas subdivisões dentro da casta de Vaixas. No sistema de castas, usado informalmente pelos indianos, existem quatro divisões: Brâmanes, que são sacerdotes e têm função intelectual na sociedade; os Xátrias são os guerreiros e administradores, que organizam o país; Vaixas, que são os comerciantes – Modi se enquadra nesta casta; e Sudras, que são os camponeses e operários.
Até 1950, era permitida a existência de uma outra “casta”, os Dalits – ou páreas, em português – que eram considerados impuros e só poderiam ter contato entre si.

Porém, nessa época, foi abolido não só o termo “Dalit”, mas todo o sistema de castas. O problema é que, segundo o diretor do Centro de Estudos Narayama e especialista em cultura da Índia, Ruy Bastos, o sistema continuou a existir informalmente.

TEC./SONORA: Ruy Bastos, especialista em cultura da Índia.

“Existem brâmanes que, ao tocarem em páreas ou encostar na rua eventualmente, eles passam semanas se purificando. Ainda existe um pouco, em alguns redutos mais tradicionais, uma discriminação forte em função ainda dessa hierarquia.”
 

LOC.: De todo modo, Ruy Bastos explica que a casta do premiê Narendra Modi é considerada vulnerável e, por isso, precisa de políticas públicas mais específicas para se integrar melhor à sociedade. Apesar de não serem descriminados, em algumas regiões da Índia, os Vaixas estão quase abaixo da miséria.

Mesmo assim, de acordo com Bastos, a hierarquia não impede que indianos de castas mais baixas ocupem cargos públicos ou governem, e no caso de Modi, o que valeu mais no momento da eleição foi o forte nacionalismo hindu, principal movimento religioso na Índia.

TEC./SONORA: Ruy Bastos, especialista em cultura da Índia.

“Ele tem um apelo muito forte porque ele tem um jogo de cintura. Ele teve uma ligação inicial com movimentos hinduístas fundamentalistas, e ele ressurge com o discurso de tradições indianas. Ele vem resgatando essas tradições, e à rigor ele não teria nenhum tipo de restrição. Ele não é considerado um párea, ele não está fora do sistema de castas. Ele está bem enquadrado, e tem um apelo popular enorme em função de ter resgatado uma série de valores tradicionais hinduístas.”

LOC.: De acordo com o Population Reference Bureau (PRB), uma organização privada norte-americana sem fins lucrativos, a Índia é composta por 1,37 bilhão de pessoas. Segundo estudo divulgado em 2018, é possível que até 2050, o país ultrapasse em 25% a população chinesa, que atualmente é a maior do mundo.

Enquanto isso, a tendência é que, mesmo com a proibição, o sistema de castas continue a existir informalmente na Índia. E por ser um país muito populoso, não será possível controlar a tradição.

Reportagem, Sara Rodrigues