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Os dados não refletem totalmente a realidade, alegam especialistas sobre feminicídio no Brasil

Roraima lidera ranking de 2016 sobre feminicídio por estados com taxa de 10 feminicídios por 100 mil mulheres. Pesquisadoras contestam dados

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A Agência do Rádio fez uma série de três matérias sobre feminicídio no Brasil / Foto: reprodução Shutterstock

Ano após ano, pesquisas relacionadas à violência contra mulher são divulgadas no Brasil, mas o que ainda se nota são resultados pouco animadores em relação a essa questão.

Um exemplo é um levantamento divulgado em fevereiro deste ano pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), denominado "Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil". O relatório aponta que 4,6 milhões de mulheres sofreram agressões físicas no país, só no ano passado.

Apesar de expressivo, esse número ainda não retrata a realidade. Isso porque o mesmo levantamento revela que mais de 52% das mulheres brasileiras agredidas não denunciam os ataques.

Para a promotora de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Silvia Chakian, a falta desses registros pode reduzir a atenção que esse tema deveria receber. Além disso, ela destaca que isso inibe a verificação adequada que o caso poderia ter.

“Nem sempre a tipificação que é feita é adequada. É um problema em muitos estados. Então é muito complicado e delicado você analisar esses dados e chegar a conclusão de que num determinado estado ocorrem mais ou menos feminicídios, se a gente ainda não tem uma segurança de como esses dados são coletados”, afirma.

Entre 2006 e 2016, a taxa de feminicídio no País aumentou 6,4%. O levantamento foi feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Confira abaixo o ranking feito pela Agência do Rádio dos 10 estados com maiores taxas de feminicídio por 100 mil habitantes.

Ranking dos 10 estados com maiores taxas de feminicidio por 100 mil habitantes no Brasil / Arte: Ítalo Novaes

Ao analisar os dados e a situação, a pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Wânia Pasinato, acredita que a discussão sobre esse tema deve ter um viés mais político.  

"A gente tem se impressionado muito com os números porque os casos, aparentemente, estão crescendo. Mas os números acabam ficando tão vazios de sentido e prejudicando o fator político que estava embasando toda uma discussão para que nós pudéssemos aprovar uma lei de feminicídio no Brasil. As mulheres foram assassinadas por alguma circunstância relacionada a desigualdade de gênero na sociedade", analisa.

A edição de 2018 do Atlas da Violência mostra que o feminicídio entre as mulheres negras registrou uma taxa de 5,3 casos por 100 mil habitantes, em 2016. Já as mulheres não negras representaram uma taxa de 3,1 feminicídios, na mesma proporção. A diferença é de 71% no número de casos. Na opinião da integrante da ONG Criola, do Rio de Janeiro (RJ), Ana Míria Carinhanha, os números refletem os direitos da mulher negra no Brasil.

“A população negra tem uma oferta de bens e serviços mais precária, tanto na qualidade quanto na quantidade do que as mulheres brancas. Então não é a mesma quantidade de mulheres negras que tem o mesmo acesso ao telefone, por exemplo. Se a gente observa dentro de uma delegacia, o tratamento é diferenciado das mulheres negras para as mulheres brancas. São várias questões que vão muito além da procura exclusiva pelo serviço”, opina.

A integrante da ONG Criola, Ana Míria Carinhanha, alega que os números refletem os direitos da mulher negra no Brasil  / Foto: arquivo pessoal

A Agência do Rádio elaborou outro ranking. Desta vez, sobre os 10 estados com os maiores casos de feminicídio com mulheres negras por cada 100 mil habitantes no Brasil em 2016. Confira abaixo.

Ranking por estado de feminicídio com mulheres negras em 2016 no Brasil / Arte: Ítalo Novaes

Um dos casos de violência contra a mulher que ganhou repercussão nacional foi o da advogada Tatiana Spitzner, que morreu após ser jogada do 4º andar de um prédio, no Paraná. O agressor, Luís Felipe Manvailerm, que era marido da vítima, disse que a mulher se jogou da sacada. No entanto, o argumento foi descartado pela perícia.

Outro caso aconteceu em agosto de 2018, em Goianira, região metropolitana de Goiânia. O comerciante João Carlos dos Reis, de 23 anos, foi preso por atirar na namorada com uma arma de fogo. Na época, a Polícia Civil suspeitou de que o rapaz teria matado Mônica Gonzaga Bentavinne, de 22 anos, por ciúmes.

Já detido, o jovem admitiu que quis ver o celular da companheira, mas ela não deixou. Ele relatou que atirou em Mônica por achar que a arma não estava carregada. De janeiro a julho de 2018, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, registrou mais de 740 ocorrências relacionadas a feminicídio no Brasil.

Na terceira e última reportagem da série sobre feminicídio no Brasil, você vai conferir os tipos de violência mais registrados pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. Daqui a pouquinho estaremos de volta. Confira aqui a terceira reportagem da série.

Pedro Marra

O jovem jornalista chegou à redação recém-formado e compõe a nossa equipe desde 2018. Com a experiência de ter sido repórter de esportes e cidades no Jornal de Brasília, suas pautas preferidas são educação e investigação.


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Ano após ano, pesquisas relacionadas à violência contra mulher são divulgadas no Brasil, mas o que ainda se nota são resultados pouco animadores em relação a essa questão.

Um exemplo é um levantamento divulgado em fevereiro deste ano pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), denominado "Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil". O relatório aponta que 4,6 milhões de mulheres sofreram agressões físicas no país, só no ano passado.

Apesar de expressivo, esse número ainda não retrata a realidade. Isso porque o mesmo levantamento revela que mais de 52% das mulheres brasileiras agredidas não denunciam os ataques.

Para a promotora de Justiça do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Silvia Chakian, a falta desses registros pode reduzir a atenção que esse tema deveria receber. Além disso, ela destaca que isso inibe a verificação adequada que o caso poderia ter.

“Nem sempre a tipificação que é feita é adequada. É um problema em muitos estados. Então é muito complicado e delicado você analisar esses dados e chegar a conclusão de que num determinado estado ocorrem mais ou menos feminicídios, se a gente ainda não tem uma segurança de como esses dados são coletados.”

Entre 2006 e 2016, a taxa de feminicídio no País aumentou 6,4%. O levantamento foi feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Ao analisar os dados e a situação, a pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Wânia Pasinato, acredita que a discussão sobre esse tema deve ter um viés mais político.  
 

"A gente tem se impressionado muito com os números porque os casos, aparentemente, estão crescendo. Mas os números acabam ficando tão vazios de sentido e prejudicando o fator político que estava embasando toda uma discussão para que nós pudéssemos aprovar uma lei de feminicídio no Brasil. As mulheres foram assassinadas por alguma circunstância relacionada a desigualdade de gênero na sociedade.”

A edição de 2018 do Atlas da Violência mostra que o feminicídio entre as mulheres negras registrou uma taxa de 5,3 casos por 100 mil habitantes, em 2016. Já as mulheres não negras representaram uma taxa de 3,1 feminicídios, na mesma proporção. A diferença é de 71% no número de casos. Na opinião da integrante da ONG Criola, do Rio de Janeiro (RJ), Ana Míria Carinhanha, os números refletem os direitos da mulher negra no Brasil.

“A população negra tem uma oferta de bens e serviços mais precária, tanto na qualidade quanto na quantidade do que as mulheres brancas. Então não é a mesma quantidade de mulheres negras que tem o mesmo acesso ao telefone, por exemplo. Se a gente observa dentro de uma delegacia, o tratamento é diferenciado das mulheres negras para as mulheres brancas. São várias questões que vão muito além da procura exclusiva pelo serviço.”

Um dos casos de violência contra a mulher que ganhou repercussão nacional foi o da advogada Tatiana Spitzner, que morreu após ser jogada do 4º andar de um prédio, no Paraná. O agressor, Luís Felipe Manvailerm, que era marido da vítima, disse que a mulher se jogou da sacada. No entanto, o argumento foi descartado pela perícia.

Outro caso aconteceu em agosto de 2018, em Goianira, região metropolitana de Goiânia. O comerciante João Carlos dos Reis, de 23 anos, foi preso por atirar na namorada com uma arma de fogo. Na época, a Polícia Civil suspeitou de que o rapaz teria matado Mônica Gonzaga Bentavinne, de 22 anos, por ciúmes.
Já detido, o jovem admitiu que quis ver o celular da companheira, mas ela não deixou. Ele relatou que atirou em Mônica por achar que a arma não estava carregada. De janeiro a julho de 2018, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, registrou mais de 740 ocorrências relacionadas a feminicídio no Brasil.

Na terceira e última reportagem da série sobre feminicídio no Brasil, você vai conferir os tipos de violência mais registrados pelo Ligue 180, a Central de Atendimento à Mulher. Daqui a pouquinho estaremos de volta. Confira aqui a terceira reportagem da série.

Reportagem, Pedro Marra